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Opinião: Secretário Mauro, a vida dos policiais penais também importa!


Foto: SINDPPEN-CE / Divulgação

Conversei bastante esses dias com um policial penal sobre os bárbaros incidentes que envolveram a categoria neste lamentável novembro de 2021. No dia 06, um policial penal tirou a vida de um colega de trabalho em um presídio em Pacatuba (CE), região metropolitana de Fortaleza. Em seguida, já fora do ambiente de trabalho, suicidou-se. No dia 13 outro policial penal, de apenas 24 anos, que estava lotado em Granja (CE), tirou a própria vida. No dia seguinte (14) outro servidor, que até então trabalhava em Aquiraz (CE), também faleceu dessa forma. Desde 2019, sete policiais penais tiraram a própria vida no Ceará.


O prejuízo emocional envolvido é enorme. Não são apenas 7 vidas jovens perdidas, mas famílias dilaceradas pela dor da perda e uma categoria profissional abalada. A questão é: eram essas perdas evitáveis?

Gostaria de deixar claro, aqui, que minha intenção não é ofender nem prejudicar ninguém, tanto que optei por não citar o nome dos policiais envolvidos. Sou apenas um cidadão em busca de entender o que acontece por dentro daqueles tão alto muros, um mundo que raramente vem à toa. A baixa transparência ali parece ser regra, não exceção.


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No primeiro episódio, dia 06, o Sindicato dos Policiais Penais e Servidores do Sistema Penitenciário do Ceará (Sindppen-Ce) publicou nota à imprensa lamentando o ocorrido e alertando sobre condições de trabalho desfavoráveis. Os pedidos de licença médica “bateram recorde”, muitos policiais estariam com problemas psicológicos e, assim, atestados médicos tornaram-se constantes.


Em defesa, a Secretaria de Administração Penitenciária do Ceará (SAP-CE) informou que oferece atendimento psicológico integral aos seus profissionais. Mas uma frase da nota à imprensa transparece o que realmente importa para a gestão Mauro Albuquerque: “o atual sistema prisional do Ceará devolveu os espaços de autoridade e respeito aos policiais penais.” Parece que o importante para a SAP não são resultados internos, em termos de qualidade de trabalho, para seus servidores, mas manter o sistema quieto, sem rebelião, para não atrair más notícias. Mesmo que às custas da saúde de seus policiais penais.


Eu, até então, acreditava que o apoio à gestão de Mauro Albuquerque era quase unânime entre os policiais penais, por causa da tal “moralização” alcançada em sua gestão. Descobri que a maquiagem que o sistema penitenciário vende, extra muros, vinha funcionando comigo também. Afinal, ao contrário do que imaginava, o Secretário é criticado por presos e grande parte dos servidores. Ao que parece, infelizmente, a atenção “exemplar” que o Estado do Ceará oferece a seus presidiários chega, também, aos policiais penais.


Imprensa x Realidade


Há cerca de um ano e meio atrás, em um dia de trabalho qualquer, o policial penal com quem conversei assistiu a um surto psicológico vivido por um colega que, gritando, apontou a própria arma para a boca. Enquanto seu superior tentava acalmar o policial em crise, este que conta a história mantinha, calmamente, a mão na própria arma, para o caso do servidor surtado apontar seu equipamento para os demais - ele estava a ponto de ferir o colega em defesa de si e dos demais. O superior convenceu o colega em crise a abaixar a arma, e os ânimos serenaram. Apesar do desfecho positivo, a cena mostra um ambiente de trabalho tenso, que não sai na mídia.


A crise de saúde psicológica dos policiais penais vem de muito antes, me conta o servidor, usando como prova a situação vivenciada acima. A questão é que, desta vez, como o acontecimento do dia 06 foi muito grave, assassinato seguido de suicídio, ganhou repercussão (observem que os dois suicídios que se seguiram não tiveram a mesma atenção da mídia cearense). O assédio moral é constante, ele conta.


“Eu, por exemplo, trabalho a 400 quilômetros do meu local de trabalho [800km ida e volta], embora tenha prestado concurso para a minha região [sul do Ceará]. E agora só existe o regime de 1 por 3, ou seja, trabalho 24 horas e folgo 36. Antigamente eu podia fazer 2 por 6, o que facilitava muito minha vida. E ainda tem a questão dos [pressão para não utilizar] atestados…”


Ele me mostra um áudio compartilhado em um grupo de whatsapp dos policiais. Nele um superior, visivelmente constrangido, informa a seu comandado que seu pedido de 2 por 6 estava sendo negado. Ao final, uma outra voz grita, ao fundo, para ele parar de “botar atestado”. “O clima de trabalho tá muito ruim”, desabafa, me contando que vez ou outra também precisa “botar atestado”. “Ou eu faço isso ou eu endoido. Eu sobrevivo bem porque tenho minhas válvulas de escape, meu esporte, namorada, amigos. Talvez esses rapazes que tiraram a própria vida não tivessem a mesma sorte”, lamenta.


A Pastoral Carcerária e os Policiais Penais


A conversa iniciou quando eu mostrei a ele fotos da Pastoral Carcerária participando da manifestação do dia 16 de novembro contra o secretário Mauro, em frente à Assembleia Legislativa do Estado. Ele se surpreendeu um pouco, como se não esperasse o apoio da instituição à causa dos policiais penais.


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Os policiais penais e a Pastoral Carcerária costumam, por vezes, estar em lados opostos quando o assunto é tratamento digno aos encarcerados. Mas a questão é que nossa missão, inspirada no Cristo ressuscitado, é de ajudar ao próximo, seja quem seja. E, diante de tudo que assistimos neste bárbaro novembro de 2021, certamente os policiais penais do Ceará encontram-se em nossas orações e lutas diárias.


A Pastoral Carcerária se solidariza com as famílias que perderam seus entes neste triste novembro de 2021. Torcemos para que suas mortes não sejam em vão e que a SAP abra, enfim, os olhos para as condições de trabalho dos policiais penais no Ceará.


*O autor desse texto prefere manter o anonimato.


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