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Quem disse que Orfandade tem recesso?



Por Articulação Cada Órfão Importa (Ceará) e NUCEPEC/UFC (Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança)


Estamos na Semana do Natal, como temos escutado tão amiúde. Proliferam providências para a ceia do dia 24, para o almoço do dia 25. As agendas lotadas de celebrações com familiares, colegas de trabalho, de estudo, com amigos de infância, da vida toda, os conhecidos de viagem, e por aí vai.


Lojas de rua e de centros comerciais recebem clientes, ávidos por compras, muitos dos quais têm bolsos e bolsas vazias, o que faz com que se endividem nas aparentes vantajosas prestações sem juros. Será?

Os incentivos ao consumo ilimitado estão por toda a parte: nos gestos sofregos, nos textos que louvam o presentear, nas propagandas, nos programas de rádio, de TV. “É hora de acelerarmos a economia, tão estagnada por tanto tempo de Pandemia”. Dizem aqueles, que, diante da situação atual, responsabilizam as ações de prevenção para fazer acontecer a vacinação indispensável e para evitar que o número de mortes pela Covid-19 fosse ainda mais desastroso do que tem sido no Brasil.


As estratégias nefastas de negacionistas, terraplanistas não são novas entre nós. Rodolfo Teóphilo, além da varíola, enfrentou a tentativa de boicote de partidários do então governador do Ceará, Nogueira Acioli, já que o sanitarista expunha a indiferença do Estado frente à morte e aos mortos. O roteiro alimentado pela ignorância na nossa própria história se repete. Desta vez, nutrido também pelo neoliberalismo na Economia. Como se essa pudesse se alicerçar em mortes e sequelas.


Há também espaços amplos e generosos, no coração, na empatia e na solidariedade, para aquisição de alimentos, produtos de higiene e mesmo de alguns brinquedos, a serem distribuídos, como doação, com aqueles que passam fome e outras muitas necessidades, e são tantos, são incontáveis, neste País desgovernado.


Estamos na Semana do Natal, como tem ecoado nas mídias, nos grupos de whatsapp, nas conversas cotidianas, nos encontros casuais ou combinados. E estamos na Semana do Natal? Perguntam os tantos milhões de desempregados e submetidos a explorações no mundo do trabalho, impedidos de providenciar a ceia, de presentear os entes mais queridos, de celebrar o sentido de Esperança e Paz sugerido para a temporada. Estamos na Semana do Natal? Indagam igualmente os milhões que pranteiam a perda de familiares e amigos para a Covid-19 e, ainda mais, a sua perda para a negligência descarada do Governo Federal e de seus apoiadores, no trato público da Pandemia.


“Estamos iniciando o recesso de final de ano. Voltaremos às nossas atividades normais no dia 03 de janeiro de 2022”. E até lá, ficam suspensas a miséria, a fome, a pobreza, a segurança alimentar? E mais ainda, até quando ficam em recesso as providências, ainda nem iniciadas, dos Poderes Públicos com mais um grupo vulnerabilizado neste País, os denominados órfãos da Covid-19?


Desde março de 2020, início da Pandemia no Brasil, os órfãos da Covid-19 não têm sido prioridade nas políticas públicas, mesmo a Constituição Federal e o ECA assegurando o contrário.

Até quando continuam adiadas, sem anúncio de qualquer prazo para começar, as ações de auxílio financeiro e de segurança alimentar, de regulamentação da representatividade legal dos mais de 200 mil órfãos, espalhados pelos quatro cantos do País, sem sabermos, sequer, quantos são exatamente, quem são, onde estão e em que condições estão (sobre)vivendo? E o indispensável atendimento psicossocial para que essas crianças e adolescentes possam ter atenuadas as trágicas consequências da ruptura dos vínculos mais primários da vida?


Até quando os Poderes Públicos (Executivo, Legislativo e Judiciário), através de praticamente todas as suas instituições, gestores, legisladores e operadores da Justiça (social?), equipamentos e serviços, permanecerão silentes sobre uma geração comprometida, sobre 200 mil histórias sem perspectiva de final humano? Até quando as peças orçamentárias – nos três nível de Governo – continuarão a fazer de conta que não existe drama na Orfandade, mesmo sabendo que Orfandade não é do reino do faz de conta, que Orfandade não entra em recesso?


Até quando?!!


Quem cala sobre o teu corpo/Consente na tua morte...

Menino (Mílton Nascimento e Ronaldo Bastos)


Contato: @nucepec a3pinheiro@gmail.com

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