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Blog Escrivaninha: A difícil arte de ser “neutro” em meio à guerra entre facções em Fortaleza


Inscrição feita em muro na Região Metropolitana de Fortaleza é um exemplo de como o crime organizado regula as condutas da população, em especial nas periferias. Foto: Ricardo Moura.

Por Jamieson Simões e Ricardo Moura*

Em 27 de maio de 2021.

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No dia 8 de junho de 2020, em plena segunda-feira, os moradores de diversos bairros de Fortaleza puderam ouvir o barulho de uma série de fogos de artifício disparados de forma coordenada. Não era dia de clássico-rei, muito menos festa de ano novo. Tratava-se da comemoração pela conquista, por parte do Comando Vermelho, de territórios até então tidos como “neutros” na geopolítica do crime organizado no Ceará. Dias depois, os fogos voltaram a ser observados, como uma forma de resposta dos Guardiães do Estado (GDE) às investidas.


Por dois anos, entre 2017 e 2018, o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado travaram uma guerra sem precedentes na disputa por pontos de venda e pelo predomínio sobre comunidades inteiras. O confronto contribuiu para que o Ceará batesse recordes na quantidade de assassinatos. Em 2019, a resposta do Governo do Estado veio com mudanças profundas na gestão do sistema prisional, bem como operações que desarticularam lideranças, em especial da GDE, enfraquecendo a facção.


Como não há vácuo na política e muito menos no crime, esse momento de instabilidade na organização criminosa foi aproveitado pelo Comando Vermelho, que passou a dominar áreas que viviam até então sob o predomínio dos Guardiães do Estado e fazendo com que sua presença se impusesse até mesmo em territórios que não pertenciam a nenhum dos dois grupos. Isso tudo aconteceu em meio às medidas de isolamento social rígido, ou seja, o Crime se moveu em meio ao vazio das ruas.


Após esse breve período de hegemonia, o Comando Vermelho passou a sofrer diversos reveses a partir do segundo semestre do ano passado. Dissidências como a do Comando da Laje, no município de Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza, ganharam força, colocando em xeque a capacidade da organização de manter o controle sobre seus territórios.


Ao mesmo tempo, diversas lideranças do CV foram presas pela Operação Guilhotina, uma ação conjunta entre a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE). Até março, a iniciativa havia resultado na prisão de 28 pessoas e na apreensão de 633 quilos de cocaína e crack.


Os riscos da “neutralidade”


Diante de um cenário de enfraquecimento das principais organizações criminosas, grupos e comunidades locais buscam sua autonomia. Conforme noticiado pelo site Bemdito, um salve (mensagem usada pelos grupos para ditarem suas ordens) assinado por membros do CV revelou que eles estavam se desfiliando do grupo e se tornando “neutros”, nome dado a quem não se filia a nenhuma das duas principais facções do Estado.


No último domingo, dia 16, o Grande Jangurussu registrava uma grande movimentação e mobilização das duas facções. Ao mesmo tempo, por meio de olhares mais atentos, era possível notar o surgimento de nichos de “neutralidade”. O “Campo Estrela” é um dos epicentros dessa busca por independência. Depois de tantas mortes, os traficantes locais não veem mais vantagem em permanecer vinculados ao CV e querem a neutralidade do território. A comunidade do São Miguel registra movimentação semelhante, tendendo a permanecer como uma área neutra, conforme estabelecido ainda na época da pacificação. A decisão possibilita tanto o fluxo de famílias como também do próprio tráfico.


O processo de resistência em curso visa garantir o livre trânsito entre as duas organizações na área. As baixas foram muitas nos últimos anos. Com isso, há um esgotamento das pessoas “matáveis” e dos recursos necessários para manter o conflito no ritmo anterior. Essas dificuldades são agravadas pela falta de liderança e de comunicação ocasionada a partir da prisão dos principais chefes.


A neutralidade também tem seus riscos. Não tem sido uma tarefa fácil, contudo, manter essa posição sem contar com o suporte de uma organização mais consolidada. Os enfrentamentos vêm de todos os lados, até mesmo da polícia. Relatos de truculência policial no Grande Jangurussu chegam via Whatsapp, no meio da madrugada, como no relato que segue, com data de hoje (dia 27): “Tava um grupo de meninos na esquina. Uns em motos e outros de bicicleta. Uma viatura parou e deram um tiro. Aí todo mundo correu. Eu tava na rua nessa hora, ouvi o barulho e vi a viatura passando. Infelizmente aqui está sim…De verdade, ficou assim depois que ficou neutro. Parece que saiu da proteção da facção”.


A população das comunidades mais empobrecidas da cidade ficam mais uma vez no fogo cruzado entre a violência e controle exercido pelas facções e a ação violenta dos agentes de segurança. Este seria o momento de ocupação dos territórios com ações de garantia de direitos e enfrentamento aos efeitos da pandemia. Um estado garantista que possibilite uma experiência de paz e democracia deveria ser o mote para intervenção e presença permanente nesses enclaves. Como se dará a dinâmica territorial com essas forças em movimento ainda é um campo em aberto.


*Jamieson Simões é pesquisador de dinâmicas criminais na cidade de Fortaleza. Ricardo Moura é Jornalista e Sociólogo, autor do Blog.

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