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Campanha da Fraternidade 2024: A “síndrome de Caim” no Brasil


Por Padre Francisco Aquino Júnior*

Em Portal das CEBs, 22 de fevereiro de 2024.


A Campanha da Fraternidade 2024, recordando com Jesus que somos todos irmãos e irmãos, fala de “fraternidade e amizade social”. E faz isso no contexto de uma sociedade profundamente dividida, desigual e excludente.


"Reconciliai-vos com Deus. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação." 2Cor 5,20; 6,2

É verdade que sempre houve divisões e inimizades entre pessoas, famílias e grupos, especialmente em períodos eleitorais. Mas isso alcançou nos últimos anos, com o crescimento da extrema direita e o uso das tecnologias digitais, dimensões e proporções assustadoras. A criação do “gabinete do ódio”, a constituição de verdadeiras “milícias digitais” e a propagação de “movimentos digitais de ódio e destruição” criou um ambiente de intolerância, ódio, agressão, fake news e violência generalizados, onde os adversários e até os diferentes são transformados em inimigos a serem odiados e eliminados a todo preço. Isso gerou inimizade entre adversários, nas famílias, entre amigos e nas igrejas. Disseminou a prática imoral do “tudo vale” e “tudo pode” contra o adversário/inimigo: difamação, mentira, agressão verbal e até física. Despertou e aguçou a intolerância e o desejo de eliminação do diferente/adversário/inimigo: seja uma “eliminação virtual” (cancelamento), seja uma “eliminação real” (homicídio). O Texto-Base da Campanha da Fraternidade chega a falar de uma “cultura do cancelamento”.


Mas a consideração do ambiente de polarização, intransigência, ódio e violência não pode ofuscar nem relativizar a marca mais fundamental e trágica de nossa sociedade que é desigualdade social. Primeiro, porque a desigualdade social no Brasil, não só não diminuiu, mas continua crescendo: um estudo apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), revela que 1% da população concentra 60% da riqueza nacional; 4 dos 5 homens mais ricos do Brasil tiveram um aumento de 51% de sua riqueza em 2020 (em plena pandemia!), enquanto 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres; a pessoa mais rica tem uma fortuna equivalente a 107 milhões de brasileiros. Segundo, porque a polarização do Brasil, em grande medida, foi provocada e/ou instrumentalizada pela extrema direita em função de um projeto político voltado para os interesses dos grandes grupos econômicos. Não por acaso o discurso “deus-pátria-família” sempre esteve associado ao desmonte de políticas públicas e direitos trabalhistas, a aversão a direitos humanos e políticas ambientais, ao ódio a tudo que tem a ver com justiça socioambiental e à defesa intransigente do “teto de gastos” para políticas sociais (para pagamento de juros não há teto de gastos nem responsabilidade fiscal!).


Essa desigualdade social chega ao extremo nos setores mais vulneráveis, produzindo verdadeira exclusão social. Segundo o IBGE, 67,8 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza (com até 637 reais por mês) e 12,7 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza (com até 200 reais por mês). Particularmente dramática é a condição da População em Situação de Rua que “supera 281,4 mil pessoas no Brasil”. Sem falar da situação da população carcerária que chega a 839.672 (dados de junho de 2023), formada em sua imensa maioria por jovens pobres e pretos das periferias. E aqui se conjugam pobreza/miséria, racismo, preconceitos, discriminação…


Procurando compreender o ambiente cultural em que se produz e se reproduz uma sociedade dividida, desigual e excludente como a nossa e perguntando sobre o “motivo pelo qual estamos vivenciando um tempo em que a vida, as pessoas e as relações humanas experimentam tanta agressão, tantas ameaças”, o Texto-Base da Campanha da Fraternidade fala de uma espécie de “síndrome de Caim”, na qual, “não só não nos sentimos mais responsáveis uns pelos outros como também, ainda que não expressemos desse modo, desejamos que as pessoas que pensam diferentemente de nós desapareçam, isto é, sejam na prática exterminadas”.


De fato, “chegamos a uma época em que a não fraternidade, ou seja, a inimizade social se tornou o critério determinante para boa parcela de pessoas, de grupos e da sociedade”. E é isso que justifica e exige uma Campanha da Fraternidade que convoque, mobilize e promova a “fraternidade e amizade social” em todos os âmbitos da sociedade. Essa “pandemia sociocultural” (divisão, desigualdade, exclusão) “clama por transformação e conversão à luz da fraternidade nascida do Evangelho”.


*é Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität de Münster (Alemanha), professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, no Ceará.

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