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Opinião: Uma conversa entre irmãos sobre a campanha eleitoral

Foto do escritor: PastoralCarcerariaCE
PastoralCarcerariaCE
há 5 minutos
3 min de leitura
Palácio do Abolição, em Fortaleza, é sede do Poder Executivo cearense. (Foto: reprodução)
Palácio do Abolição, em Fortaleza, é sede do Poder Executivo cearense. (Foto: reprodução)

Por pe. Marcos Passerini*


A riqueza dos meios de comunicação permite que, mesmo estando longe do Brasil, eu consiga acompanhar um pouco do preocupante clima desta campanha eleitoral. Por isso, com simplicidade e sem nenhuma pretensão, tomo a liberdade de compartilhar com vocês, irmãs e irmãos da Pastoral Carcerária do Ceará, esta pequena reflexão.


A campanha eleitoral de 2026 já está nas ruas e, como sempre, vai entrando também em nossas casas, nas nossas conversas e nas nossas instituições. São bandeiras de partidos, candidatos e candidatas por todos os lados.


Com raras exceções, tenho a impressão de que o medo da violência está sendo, mais do que nunca, disputado politicamente. E, em muitos casos, com tanta demagogia que fica difícil para nós, eleitores e eleitoras, perceber que o bem comum não pode ser reduzido à oposição entre “bandido” e “cidadão de bem”.


Também me parece perigoso transformar segurança pública numa simples conta de policiais, armas, viaturas blindadas, mais presídios, penas mais longas, redução da maioridade penal e outras tantas propostas que parecem partir da ideia de que basta eliminar o “inimigo” para resolver o problema.


Mas nossa experiência pastoral tem nos ensinado outra coisa.


Tem nos ensinado que entre combater o crime e construir a paz social existe uma distância enorme. E que atravessar essa distância exige tempo, paciência, políticas públicas e, sobretudo, a coragem de olhar para a pessoa humana para além do crime que ela cometeu.


Como não lembrar, então, de tudo aquilo que já estudamos, escrevemos, discutimos e experimentamos sobre a Justiça Restaurativa?


A paz não nasce simplesmente da punição. A paz exige reconstrução de relações humanas. Exige, quando possível, restaurar aquilo que foi quebrado, cuidar das feridas, assumir responsabilidades e criar condições para que a violência não continue se reproduzindo.


É justamente por isso que me sinto à vontade para fazer uma pergunta, talvez um pouco incômoda:


O que a Justiça Restaurativa teria a ensinar ao debate eleitoral brasileiro?


É claro que o enfrentamento ao crime organizado é necessário. Ninguém de nós pode ignorar isso. A sociedade precisa ser protegida.


Mas será que uma política de segurança pública baseada quase exclusivamente no combate, na punição e no encarceramento consegue realmente enfrentar as raízes da violência?


Ou será que estamos, muitas vezes, tratando os sintomas sem mexer nos ciclos que continuam produzindo violência?

Pelo que tenho acompanhado, está difícil enxergar, nesse enigmático baralho eleitoral de 2026, algum candidato ou candidata que realmente compreenda e levante a bandeira da Justiça Restaurativa.

Talvez porque essa bandeira, por enquanto, não dê muito voto.


E aí está, quem sabe, uma parte da nossa responsabilidade.


Vamos abrir bem os olhos. Vamos tentar olhar um pouco além dos discursos prontos, das promessas fáceis e das soluções que parecem caber em um palanque.


Sabemos que ninguém é perfeito. Nenhum candidato ou candidata vai corresponder inteiramente àquilo que pensamos ou desejamos. Mas podemos procurar aquele ou aquela cuja história, escolhas e práticas já tenham mostrado alguma coisa fundamental: que a pessoa humana não perde sua dignidade porque cometeu um crime.


Talvez seja por aí que devamos pensar também o nosso voto.


Porque, no fundo, a pergunta não é apenas quem vai combater melhor o crime?


Talvez devêssemos perguntar também:

Quem tem coragem de construir caminhos de paz?


E talvez seja justamente aí que a Justiça Restaurativa tenha alguma coisa muito importante a dizer ao Brasil antes, durante e depois das campanhas eleitorais.


Um abraço fraterno a todas e todos vocês, muita Oração e até breve.


*pe Marcos Passerini, MCCJ, é sacerdote da congregação dos Missionários Combonianos e Assessor da Pastoral Carcerária do Ceará.

 
 
 

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