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Pe. Francisco Aquino Júnior: A cor do pecado/Dia da Consciência Negra


Imagem: Revista Piauí

Por Padre Francisco Aquino Júnior*

Em Portal das Cebs, 28 novembro de 2023.



20 de novembro é Dia da Consciência Negra: dia de denúncia do racismo que caracteriza nossa sociedade; dia de afirmação da dignidade do povo negro; dia de luta por políticas públicas que garantam direitos à população negra; dia de celebração da resistência negra; dia de gritar aos quatro contos: basta de “casa-grande e senzala”!!!


Enquanto os movimentos negros procuram dar visibilidade e denunciar o racismo contra o povo negro que se manifesta nos índices de pobreza, subemprego, encarceramento e violência policial, na quantidade de negros em instâncias e cargos de poder, no preconceito e nas piadas e até no imaginário religioso (“cor do pecado”, “ovelha negra”, “vai pretinho pro inferno”, “será o Benedito?”); muita gente reage, negando o racismo ou até mesmo tratando a denúncia do racismo como uma forma de racismo. E não falta quem pergunte ironicamente pelo “dia da consciência branca” ou afirme cinicamente que não precisamos de dia de consciência negra, mas, sim, de “dia de consciência humana”, negando ou banalizando o racismo em nossa sociedade.


Basta tomarmos os dados de encarceramento e da violência policial para vermos como nossa sociedade está construída e funciona na lógica da “casa-grande e senzala”:


O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023 revela que 68,2% do total de pessoas encarceras no Brasil é negra.
Entre 2005 e 2022, a população branca encarcerada cresceu 215%, enquanto a população negra encarcerada cresceu 381,3%.

De acordo com o “Relatório Pele Alvo: a bala não erra o negro”, da Rede de Observatórios de Segurança, 87% das vítimas de violência policial em 2022 (Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, São Paulo e Rio de Janeiro) é preta ou parda. Isso significa que nove de cada dez vítimas da polícia é negra. Na Bahia, esse índice chega a 94,7%. E os números podem ser ainda maiores, uma vez que os Estados do Maranhão, Ceará e Pará não registram satisfatoriamente a cor e a raça das vítimas.


Isso mostra o caráter racial da violência policial e da política prisional brasileira que, por sua vez, revela como nossa sociedade é estruturada e regida pela lógica da “casa-grande e senzala”. Desmascara a retórica da igualdade racial como tentativa de esconder, proteger e manter o racismo estrutural que faz do povo negro uma sub-raça que deve “reconhecer o seu lugar” que é a senzala, a periferia, a “dependência” nos apartamentos da classe média/alta, os serviços gerais, a penitenciária… E, para um crente/cristão, revela o caráter pecaminoso dessa forma de organização da sociedade.


É preciso dizer com todas as letras e sem meias palavras que o racismo é um pecado que atenta contra a obra criadora de Deus que criou todas as pessoas à sua imagem e semelhança, atentando contra a dignidade do povo negro e contra o projeto de fraternidade, justiça e paz anunciando por Jesus de Nazaré. É a dimensão racial do pecado que discrimina, marginaliza, violenta e mata o povo negro. O pecado tem cor/raça: em suas vítimas e nos que violentam e matam…


A consciência do pecado racial chama a uma conversão racial que deve se concretizar no empenho pessoal e social por eliminar todas as formas de racismo, mediante relações fraternas e políticas públicas que criminalizem o racismo e garantam direitos efetivos para a população negra e acesso aos espaços e cargos de poder.


Viva Zumbi e Dandara dos Palmares!


Viva a luta do povo negro!


Axé…


*é Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität de Münster (Alemanha), professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, no Ceará.

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