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O POVO: Sequestro de dom Aloísio, 30 anos: Dom Aloísio beijou e lavou os pés dos detentos


Após o sequestro, Dom Aloísio Lorscheider perdoou e abençoou seus agressores. Seu exemplo é fonte de inspiração para a Pastoral Carcerária e movimentos em prol dos Direitos Humanos em todo o mundo. Foto: João Carlos Moura-reprodução

Por Sara Oliveira, em O POVO, Março de 2024.


"Se alguém bater em você numa face, ofereça-lhe também a outra." Lucas 6:29

No mês seguinte ao sequestro, dom Aloísio Lorcheider voltou ao IPPS para lavar os pés dos detentos. A trajetória do religioso foi acompanhada pelo O POVO, que ainda em julho de 1973 anunciava a chegada do arcebispo gaúcho ao Estado.


À época presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele se posicionou contra a Ditadura, lutou, esteve envolvido em todas as causas oriundas dos fatores sociais, políticos e religiosos que se imbricavam em um Brasil muito diferente do de hoje.


Crianças, favelados, educação, eleições, seca, inflação, questões trabalhistas, guerra e Igreja. Pelos 22 anos — entre 1973 e 1995 — em que foi arcebispo de Fortaleza e pelos 10 anos em que atuou na Arquidiocese de Aparecida, era sobre esses assuntos que dom Aloísio pregava, conversava, atuava e informava. O envolvimento com as questões que atravessam a religião fez com que ele fosse o principal refém do sequestro de 1994, mas também o real mensageiro sobre o que aquela rebelião significava.


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"Naquele momento tivemos a presença de uma pessoa da dimensão pessoal, moral, ética, cívica, religiosa e política que era dom Aloísio. Uma das pessoas mais bonitas que já conheci, do ponto de vista da grandeza humana. Ele representava os direitos humanos porque era parte dessa luta, de forma inseparável", destaca o médico Mário Mamede, que na época do sequestro era deputado estadual e foi um dos reféns.


Foto: Manuel Cunha-reprodução

Dom Aloísio Lorscheider sabia onde e sobre o que falar, se encantava com as demonstrações de fé dos romeiros cearenses e sentava com as autoridades governamentais para mostrar que "defendendo o povo, defendíamos o Brasil".


Mário Mamede lembra que, dias após o sequestro, os reféns se reuniram, no sentido de saber o significado daquele dia para cada um.


"Dom Aloísio disse que esperava que aquele acontecimento pudesse trazer alguma contribuição para que as autoridades refletissem que aquela situação — de carência no sistema penitenciário — não poderia continuar".


Dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo emérito de Limoeiro do Norte. Foto: Arquidiocese de Fortaleza

Da convivência com ele, dom Edmilson Cruz, hoje (quase) centenário e também refém há 30 anos, destaca a leveza. "Dom Aloísio era muito competente e me influenciou. Foi uma convivência que não tem nenhum momento de amargura. Nenhum, nenhum. Tem momentos difíceis, como aquele sequestro lá do presídio IPPS. Naquele momento, dom Aloísio estava sentado numa poltrona no auditório. Ele ficou amarrado na cadeira por arame farpado. E os sequestradores exigindo a pressa para saírem, garantindo que em tal lugar deixariam dom Aloísio. Um deles disse "se não nos atenderem, se preparem para o churrasco", contou em entrevista nas Páginas Azuis do O POVO, em fevereiro.


Dom Edmilson lembra ainda que chegou a duvidar se os reféns sairiam com vida e diz que a maior admiração sobre dom Aloísio foi o fato de ele ter voltado ao IPPS para o lavapés, quando beijou os pés de 12 detentos.


Dom Aloísio faleceu em 2007, em Porto Alegre, aos 83 anos. Foto: reprodução

"A serenidade demonstrava que não tinha receio de que algo ruim acontecesse de novo. Após a celebração [quando lavou e beijou os pés de 12 detentos], ele pediu para visitar aquele que o ameaçara de morte. 'Carioca' estava em cela solitária e dom Aloísio quis saber se o estavam tratando bem. Antônio Carlos pediu perdão e ele respondeu que já o tinha perdoado. Nem lembrava mais. Brincou com ele e se despediu como se aquele não tivesse sido o articulador do seu sequestro. Vi ali a grandeza espiritual do arcebispo", detalha a jornalista Rita Faheina, que acompanhara a cerimônia.


Natural de Estrela, no Rio Grande do Sul, Aloísio Lorscheider era filho de Jose Aloysio e de Verônica Gerhard Lorscheider, nasceu em 8 de outubro de 1924, foi ordenado sacerdote em 22 de agosto de 1948 e nomeado bispo em 1962, pelo papa João XXIII. Morreu em 23 de dezembro de 2007, em Porto Alegre (RS).


Hoje, atuação religiosa nos presídios é majoritariamente evangélica


A atuação da Pastoral Carcerária junto aos presídios cearenses não é mais a mesma. Transformada pelo medo após o sequestro de 30 anos atrás, perdeu espaço ante o intenso avanço das Igrejas Evangélicas. A atuação que dom Aloísio tanto insistiu em colocar em prática, levando cidadania aos mais vulneráveis, hoje se resume a rezar.


"Nunca mais um bispo foi ao presídio. E isso significava exemplo para a igreja local, para os padres e para os fieis. Há a dificuldade de a própria igreja aderir a essa missão, que gera medo nas pessoas. A sociedade procura outras missões, com crianças, idosos, povo em situação de rua... mas não aos encarcerados", detalha a coordenadora regional da Pastoral Carcerária - CNBB - Nordeste 1, Ruth Leite Vieira.


Ruth Leite Vieira, Advogada e Coordenadora da Pastoral Carcerária Regional Nordeste I da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Foto: divulgação

Ruth conta que, atualmente, a Pastoral não é autorizada a entrar no sistema penitenciário com papel e caneta. A restrição, conforme ela, afeta uma das ações prioritárias do movimento eclesiástico, além da evangelização: defesa intransigente da vida e dos direitos fundamentais. Essa era a premissa de dom Aloísio Lorscheider quando falava sobre direitos e obrigações para dezenas de detentos, há 30 anos.


O papel e a caneta mencionados por Ruth cumprem um objetivo: que os componentes da Pastoral possam anotar o nome do preso, de um familiar, e um número de telefone. "Objetivo é que aquela família se vincule e a gente possa fazer o possível para que se retome a dignidade. E a grande dificuldade é que o sistema só nos permite rezar, que também é uma missão, de elevar a experiência. Mas a experiência espiritual, sem o suporte humano, não tem sentido", afirma Ruth.


Foto: Manuel Cunha-reprodução

Enquanto o braço social da Igreja Católica junto aos encarcerados vai tendo seu alcance diminuído, cresce a adesão de cada vez mais detentos às Igrejas Evangélicas. Para Ruth, há dificuldade de expansão dentro das comunidades. "Esse anseio natural, que é próprio do ser humano, de viver a condição espiritual, não é atendido pela Igreja Católica em se falando de presos. 90% não são de nenhuma religião ou são evangélicos", pondera.


O médico e ex-deputado Mário Mamede entende que essa distância foi resultado do impedimento da prática da Teologia da Libertação — abordagem teológica cristã que enfatiza a libertação dos oprimidos. "E as Igrejas Evangélicas, fundamentalistas e pentecostais, avançaram. E têm uma inserção enorme, sobretudo nas comunidades. Prometem a proteção àquelas pessoas que estão albergadas", pondera.


No atual contexto de atuação das organizações criminosas dentro e fora do sistema penitenciário, só a tutela de uma igreja extingue a obrigatoriedade de os detentos pertencerem a uma ou outra facção.

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